A música de Garoto é uma descoberta. Ouvir o seu trabalho em disco, ou assistir a um dos seus concertos é como ver construir uma delicada filigrana. Há uma voz que se insinua como cetim sobre a pele e um conjunto de intérpretes que, como artífices, serena e pacientemente, através de uma ardilosa conjugação de instrumentos e de sons, criam um ambiente propício ao abandono dos sentidos; ao mesmo tempo um caminho para o prazer.
Por outras palavras: a música de Garoto é uma viagem.
O território que o quarteto percorre nem é de todo desconhecido. A maneira como o faz, porém, evita os caminhos comuns, procura novos carreiros e, assim, ilumina paisagens escondidas dos olhares e dos sentimentos, ao mesmo tempo que encontra a sua vocação na vontade de desbravar novos lugares de sonho.
Talvez a razão de Garoto ser assim se encontre na sua história movimentada. Começou em Madrid numa fantasia de estudantes, mas assentou ali para os lados da Basílica da Estrela mesmo no final do século passado. Regressou a Espanha, para uma temporada no circuito de bares da capital, até o percurso dos então protagonistas os espalhar por outros destinos e interesses. Depois, de mão dada a Irene Caracol, voltou a Lisboa, onde, nos últimos anos, realmente cresceu e, com a ajuda de Jorge Rivotti, Filipe Simões e Marco Torre, formou a sua personalidade.
Uma personalidade única, aliás, que vive e cria confortavelmente sem as balizas que o tempo, a geografia, a língua, a moda, o comércio, ou mesmo o gosto costumam impor.
Uma música universal, cosmopolita, tão simples que se fortalece criando canções despojadas de todos os enfeites. As letras despidas ao seu essencial, sem uma palavra supérflua; a música sem redundâncias, ou sequer uma nota a mais. Pode até dizer-se que é uma música frágil, mas é fácil verificar que essa fragilidade nasce da maturidade, da memória de muitas outras músicas e principalmente do desejo de construir autonomamente a identidade de Garoto numa época de padronização.
Rui Monteiro



